terça-feira, 3 de setembro de 2013

Vivendo na Alemanha - Por Camila Furtado

Eu moro na Alemanha, porque meu marido é alemão. Nós nos conhecemos quando morávamos em Barcelona, passamos um tempo juntos, mas depois cada um voltou para o seu país e mantivemos uma relação a distância por dois anos. Até que chegamos em um ponto em que um dos dois tinha que mudar de país. Para mim as perspectivas de trabalho na Alemanha eram melhores do que para ele no Brasil, e então eu vim. Meus filhos, uma menina de 4 anos e um menino de 2 anos, nasceram e estão crescendo aqui. Criar os filhos fora do Brasil tem, como tudo na vida, suas vantagens e desvantagens.

O mais chato de tudo para mim é a saudade que eu sinto da minha família. Somos uma família grande e unida, e gostaria muito que meus filhos estivessem crescendo perto deles. Nós usamos a tecnologia disponível, mas claro que isso não substitui o convívio real. Uma vez minha filha me disse que, apesar de sentir muitas saudades da priminha, não queria falar com ela por skype. Por skype não dá para brincar“, me explicou. Isso me quebra o coração. Pensar em tudo que meus pais e meus irmãos estão perdendo, pensar que não estamos vivendo essa experiência juntos.

Mãe expatriada. Vida na Alemanha

Além disso tem a parte prática mesmo da história. É duro criar os filhos longe da família e sem praticamente nenhuma ajuda doméstica. A figura da empregada doméstica ou da babá, tão usual na vida das famílias de classe média brasileira, não existe no cotidiano alemão. A nossa família, que é uma exceção, conta com a ajuda de uma faxineira que vem a cada 15 dias para fazer a limpeza pesada. Nos finais de semana, quando queremos sair ou descansar, chamamos uma baby-sitter. Mas não é aquele esquema do Brasil. Elas cobram por hora, e não é barato. Cuidar da casa e dos filhos é trabalho meu e do meu marido.

Em relação à casa, no começo, eu ficava desesperada. Tentava manter o padrão a que estamos acostumados no Brasil. Com o tempo, contudo, fui me dando conta de que estou inserida em outra realidade e tenho que dançar conforme a música. Se eu for tentar manter minha casa da mesma maneira que é mantida a casa da minha irmã, por exemplo, eu não vou fazer nada mais da vida. Posso desistir de trabalhar, brincar com meus filhos, tomar um vinho com o meu marido, e passar o dia inteiro com um lenço na cabeça no maior estilo escrava Isaura.

Não é que eu relaxei totalmente e deixo a casa uma bagunça geral. Porém, eu fui aprendendo a aceitar que as coisas não vão ser perfeitas. O negócio é ser prática, não acumular tralhas, e envolver, na medida do possível, toda a família nas atividades domésticas. Mas, confesso que ainda me atrapalho muito e que tem dias que estou tão cansada que tenho vontade de chorar. Espero que agora que as crianças estão crescendo as coisas fiquem melhores.

Por outro lado, sou feliz de poder ter acompanhado os primeiros anos da vida dos meus filhos tão intensamente. Dei todos os banhos, fiz todas as papinhas, levei no parquinho. Agora que o mais novo também frequenta o jardim de infância em tempo integral, posso voltar a trabalhar mais horas por semana. Claro que tive que abrir mão de muitas coisas profissionalmente, mas no meu caso, não tinha outro jeito.

Se eu estivesse no Brasil, não sei se poderia me dar ao luxo de parar ou mesmo reduzir minha jornada de trabalho. No Brasil precisamos tirar tudo do próprio bolso. A vida é boa para quem ganha bem. Aqui na Alemanha o Estado desempenha um papel forte na vida dos cidadãos. Ninguém precisa ter muito dinheiro para oferecer uma vida de qualidade para os filhos. Educação, saúde, transporte público, lazer: tudo isso está disponível para todo mundo. E muitos empregadoras topam reduzir a jornada de trabalho (e o salário, claro) das mães com filhos pequenos.

Outra grande vantagem da Alemanha é a questão da violência. É libertador morar num lugar onde não é necessário se preocupar o tempo todo com a segurança da sua família. As crianças brincam na rua, andam de bicicleta, saem do carro e entram em casa com tranquilidade. Não existe o componente violência no cotidiano. 

Outra coisa bem legal na Alemanha é que todo mundo é bem menos consumista que no Brasil. Aprendi muito nos últimos anos e fico feliz dos meus filhos estarem crescendo com essa cabeça. As famílias aqui não sem importam muito em ter o carrão do ano, valorizam brinquedos bons e duráveis (como os de madeira, por exemplo) e as roupas infantis passam do irmão para o vizinho e para o irmão mais novo de novo. O dinheiro pode ser usado para outras coisas, como viajar, por exemplo.
 
Enfim, acho que a qualidade de vida aqui é bem melhor, mas por outro lado, sei o quanto é legal ser brasileiro. Tenho orgulho da nossa alegria, otimismo, bom humor e da força espiritual – independente de crenças religiosas – com os quais os brasileiros enfrentam seus desafios na vida. Acredito que essas são ferramentas fundamentais para a vida, e espero que meus filhos, mesmo crescendo longe do Brasil, possam assimilar a energia verde e amarela“ através de mim.
 
Camila Furtado é publicitária com MBA em sustentabilidade e trabalha com cooperação internacional. É uma das autoras do Blog Tudo sobre minha mãe. O blog aborda histórias e opiniões de mães sobre os desafios e alegrias da maternidade.  É casada com Holger e mãe de Maria e Gael. 
 
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Gostei muito de ler mais sobre vc, Bjs de Berlim Claudia

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