quinta-feira, 9 de maio de 2013

Sem maquiagem nos sobra a realidade - Por Dani Brito

A maternidade é o arremate de uma vida bem sucedida.

Experimente ter tudo o que sempre sonhou, ter uma boa colocação no mercado de trabalho, conhecer os lugares que sempre quis conhecer, falar várias línguas, mas nada disso terá sentido se você não tiver um filho. É nisso que acreditam e que nos fazem acreditar.

Nesses termos a maternidade encerra em seu significado a ideia de plenitude, de felicidade. Portanto, é uma experiência idealizada, fantasiada, romanceada. Afinal, a família é por definição, um lugar de congregação, harmonia e bem-estar.

Ir contra isso é violar o mais sagrado dos pactos, mas embora existam percalços, prefiro acreditar na força transformadora da maternidade. Quando engravidei, pensei de forma equivocada que estivesse mergulhando no universo materno, mas qual não foi minha surpresa ao constatar que estava mergulhando em mim mesma.
 
Otto, Bia e Dani
 
Todo mundo se prepara para receber o bebê e não para ter o bebê. Estamos mais preocupados com a montagem do enxoval, se vamos ou não comunicar à sociedade de forma oficial que seremos pais, ficamos mais envolvidos com a escolha do nome, com o planejamento do parto do que necessariamente amadurecendo a ideia de ser responsável vitaliciamente por alguém.

É verdade que ninguém fala sobre como as noites insones nos deixam amargas e à beira da loucura. Ninguém fala abertamente sobre a solidão que uma puérpera sente após o nascimento do bebê. Ninguém fala com clareza sobre o rombo no orçamento. Ninguém nunca fala que sua vida de antes, nunca mais será a mesma. Ninguém te fala sobre os desencontros no seu relacionamento e que aquele bebê tão esperado poderá gerar fricções e disputas. Ou melhor, até falam, mas costumamos não dar ouvidos, por pensar que com a gente tudo vai ser diferente. Talvez isso explique o choque quando nos deparamos com a realidade, quando enfrentamos tudo isso pela primeira vez.
 
Choque e espanto geram a culpa. Isso nos divide emocionalmente.

Para se ter um bebê, mais do que roupinhas e berço, é necessária uma maturidade que você, tão otimista quanto eu, até achava que tinha. Sim, porque é preciso muita maturidade para entender que a partir daquele momento, você não será o centro de suas decisões, haverá outro ser menor e indefeso que dependerá totalmente de você, que te acordará todas as noites, seja por sono ou por carência. Sendo tirado de ti o direito que te pertencia até então, o de simplesmente se negar, de não dar a mínima. Essa é uma tarefa que devemos assumir com afinco, amor e responsabilidade. Afinal, é para sempre.
 
Maturidade e responsabilidade deveriam ser itens básicos de todo e qualquer enxoval. Mas sabe por que não figura em nenhuma listinha? Porque só podem ser adquiridos com a prática.
 
Lembro da solidão que senti na minha licença-maternidade. Enquanto estava ali, isolada, com aquela sensação estranha de deslocamento, via da janela que o mundo continuava igualzinho. Admirando toda aquela pressa, por pouco não esqueci que deveria aproveitar o momento para interagir com minha filha. Era um momento nosso, da família, de nos conhecermos e criarmos um vínculo, criarmos intimidade. Se eu a queria tanto, por que estava preocupada com a vida de antes? Responsabilidade assusta.

Por falar em intimidade, as mudanças na vida conjugal também nos dividem emocionalmente. Isso porque nos falta o entendimento de que a vida nada mais é que o conjunto de mortes e renascimentos. Deixamos de ser casal e passamos a ser uma família. Isso, em hipótese alguma, implica na diminuição do amor, nem no desfazimento dos laços. É só uma questão de adaptação.
 
E é como família, que devemos acolher nosso filho. Esse é o amor mais forte e verdadeiro que já pude um dia experimentar. Foi com a força desse amor, que como qualquer outra mulher, consegui superar os imprevistos da maternidade.
 
O que une mãe e filho fisicamente é cortado logo após o nascimento, mas existe um elo muito mais forte que continuará nos unindo por toda a vida. 
 
Continuaremos ligados pelo coração, pelo amor, pelo afeto.
 
Dani Brito aquela pessoa comum com seus dias de lua e suas noites de sol, mãe de dois e autora do "Balzaca Materna".
 
 


 

Comentários
12 Comentários

12 comentários:

  1. "Maturidade e responsabilidade deveriam ser itens básicos de todo e qualquer enxoval. Mas sabe por que não figura em nenhuma listinha? Porque só podem ser adquiridos com a prática." - Adorei.

    Exatamente...quem está aberto e receptivo à maternidade aprende muito mais!
    Beijos, Aline

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    1. Essa eu também achei muito boa! Dani arrebentando!

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  2. Gosto muito do blog da Dani justamente por ela escrever sobre esse lado B da maternidade! Linda reflexão!

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    1. Oi Myriam, concordo com você. Para uma maternidade consciente é preciso ter conhecimento dos dois lados. Assim conseguimos equilibrar e aproveitar. Beijos

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  3. Realmente Dani, responsabilidade assusta e se não estávamos preparadas para tê-la ou não tínhamos maturidade, a própria vida vai ensinando e tem que se adaptar...afinal a maternidade é muito gostosa, mas quem foi que disse que é fácil hein?!
    Belo texto!
    Beijos,
    Larissa Andrade.

    http://maternidadeecotidiano.blogspot.com.br/

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    1. Se fosse fácil não teria tanta graça! Beijos

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  4. Ah Dani, que texto lindo!
    A minha maturidade só veio com a segunda gravidez... e como isso me deu uma nova visão em relação à maternidade. É incrível a mudança que isso ocasionou!

    Beijos, Ananda.

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    1. Oi Amanda, obrigada por sua participação. Beijos

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  5. Dani,
    "Quando engravidei, pensei de forma equivocada que estivesse mergulhando no universo materno, mas qual não foi minha surpresa ao constatar que estava mergulhando em mim mesma." Muito verdadeiro, não há como a gente não se identificar.
    Parabéns pelo texto!
    Beijos!
    Marusia

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    1. E quantas vezes fugimos desse encontro com nós mesmas? Nossa!!! várias vezes.

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  6. Eba!
    Outra amiga querida aqui!
    A Dani tbe escreve super bem.
    Parabens pelo texto e pelo convite.
    Bjks mil

    http://blogdaclauo.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada por participar Claudia!!! Beijos

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