quinta-feira, 2 de maio de 2013

Felicidade Real - Por Marusia Meneguin

De todas as definições para “filhos”, esta é a que adoro:
"Crianças: adoráveis seres com objetivo de nos fazer sempre revisitar nossas certezas." (Nanci)
Trata-se de uma permanente reconfiguração do que parecia estabelecido para sempre, acompanhada da inevitável comparação entre “antes” e “agora”. 

Vamos fazer uma retrospectiva. De quando éramos crianças, do aconchego de casa. De como era bom ir conquistando a autonomia. Da primeira viagem sozinho. De aprender a dirigir. De escolher a profissão e ter o próprio dinheiro, ou trilhar o próprio caminho. De escolher alguém para viver a dois.

Cada um desses degraus requer reconfigurações. Como era fácil quando meus pais resolviam tudo. O tempo avança e crescemos, cometemos os primeiros erros, temos que arcar com as consequências. Precisamos aprender a dividir, a economizar, a ceder. A conciliar tempo, dinheiro, realização, relacionamento, saúde. Mas, apesar dos novos desafios, todo esse percurso rima felicidade com LIBERDADE.

E aí vêm os filhos. Para mim, de todas as experiências, nada foi tão intenso quanto ser mãe. Foi uma superdose de vida real. A comparação entre o bebê imaginário e o de verdade, entre o ideal de perfeição e o cotidiano. 

Eu queria ser a mãe perfeita. Tinha aprendido tantas coisas, tinha tanto o que ensinar! Meu modelo era a Noviça Rebelde. Seríamos uma família de sorte, filhos harmonizados e cantando o dia inteiro como os Von Trapp.

Marusia Meneguin

Eu pensava que bastavam informação e boa vontade para que tudo saísse como o planejado. Sabia dos possíveis percalços e das dificuldades da maternidade, mas essas coisas “não iriam acontecer comigo”, porque eu seria e faria diferente das outras mães. Eu seria a Noviça Rebelde.

Nossa, como foi diferente! Eu estava vivenciando uma fase que me exigia, mais do que nunca, uma reconfiguração completa. Eu aprendi que...
... planejamento não é garantia. Controle é ilusão. Momentos maravilhosos acontecem quando a gente para de lamentar o que não ocorreu para olhar o que está ocorrendo. Não raro, são muito melhores que o script;
... o segredo é trocar “planejamento” por “visualização”. No planejamento, focamos nos meios em busca do fim (“quando meu filho dormir a noite toda, vou ser feliz”, “quando meu filho comer tudo, vou ser feliz” etc). Já na visualização, focamos no fim e deixamos o Universo se encarregar de prover os meios. Visualizo meus filhos dando uma risada bem gostosa – o resto vem em acréscimo;
... é importante construir nossas convicções e nos mantermos conscientes delas, mas o radicalismo aprisiona. Quanto maior for nossa expectativa em torno de protocolos fixos, maior pode ser a frustração. Ser espontâneo é permitir o acesso a novas verdades;
... cuidar de mim, cuidar de meus filhos e cuidar da minha família NÃO SÃO incompatíveis. Aliás, que a condição para cuidar bem das crianças e da família é cuidar de mim;
... eu posso ser inteira em minha profissão e inteira com eles;
... amor não se “gasta”, não precisa de economia, não se perde quando se divide. Quando não há preferência entre pai e mãe, quando meus filhos chamam indistintamente um ou outro quando querem carinho, não significa que o amor que sentem por mim é menor do que teriam se chamassem só pelo meu nome;
... muito mais que ensiná-los, eles é que me ensinam todos os dias. E a lição principal é: HUMILDADE;
... é natural esperar lógica e racionalidade da vida e dos outros. Mas os maiores ensinamentos não são apreendidos pela razão, e sim pela emoção;
... sentir frustração como mãe é um tabu, sim. Sofri muito sozinha e envergonhada, achando que era só comigo, porque na mídia tudo era cor-de-rosa. Com o passar do tempo, vi o outro extremo: o que prega que a maternidade é supremo sacrifício, que só as supermães dão conta. Para mim, não é nem uma coisa nem outra.

Existem muitas explicações para o tabu da frustração materna. Não queremos mostrar ao mundo que “falhamos”, nem “assustar” os que ainda não passaram por isso, nem queremos que nossos filhos se sintam “um estorvo”. Entretanto, a sinceridade mostra ao mundo que somos confiáveis; nos une aos que passam pelas mesmas situações; diz aos nossos filhos que somos humanos e que eles também não precisam ser perfeitos.

Uma das justificativas da frustração dos pais é a “vigilância”: como se não bastassem as próprias expectativas internas em relação aos filhos, ainda têm que administrar as expectativas dos outros. Aprendi que ser feliz com as minhas convicções NÃO É INCOMPATÍVEL com o fato de outras mães serem felizes fazendo tudo diferente de mim.

Outra justificativa remete ao início do texto, quando falamos de LIBERDADE. Quando as crianças são pequenas, realmente são muito dependentes dos pais. No início, tudo parece ir na contramão de todos os percursos da “vida antes”. A sensação é de “pílulas de felicidade” no meio da rotina extenuante. Vemo-nos sem liberdade. Por quê?
Porque nossos filhos nos chamam ininterruptamente para viver o AGORA.
Reconfiguram tudo: tempo, dinheiro, realização, relacionamento, saúde.
Pedem a todo instante que reposicionemos nossas prioridades e questionemos o que realmente vale a pena.

E mais: 
Nos tiram do sério com teimosias e pirraças, para nos desvencilharmos do pedestal de perfeição.
Mostram que as nuvens ainda contêm bichinhos.
Permitem que sejamos crianças, mesmo adultos.
Não nos pedem que giremos à sua órbita; pedem que todos tenhamos luz própria e brilhemos juntos.
Evidenciam que, para serem felizes, nós também devemos ser.
Mostram que dar é a mesma coisa que receber.
Ensinam que, se nos entregarmos à convivência com eles (com sono, sorriso banguela, antitérmico, desfralde, birra, nuvem, lágrimas, cantinho da disciplina, beijo, boletim, renúncia, brigadeiro, união, coragem, desapego, visualização e Noviça Rebelde), muito cedo teremos nossa liberdade de volta.
É quando descobrimos que a verdadeira liberdade – e felicidade - é poder viver isso tudo.

Marusia Meneguin é baiana, publicitária, mãe de três crianças e autora do Blog “Mãe Perfeita”, em que questiona, de forma bem-humorada, os modelos de perfeição presentes na mídia e na web.


 
Comentários
8 Comentários

8 comentários:

  1. Gostei do Blog. E partilho com vocês o Depoimento emocionante de ALINE quando completou 49 anos. http://www.youtube.com/watch?v=dSagrGrBeCw&feature=share&list=UUBvY_tI9xN0wVbBqJMxSr6g Ela diz: “A vida é como o mar, hora manso, hora de ressaca, perigoso, mas lindo em suas manifestações”. Abraços

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    1. E assim é a maternidade. Obrigada por participar! Abraços!!!

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  2. Lindo e perfeito!
    Expectativas nos levam a decepções e nos aprisionam, não nos permitindo viver as maravilhas do AGORA.
    Talvez esse seja o grande segredo. Esquecer o irreal universo maternal tão cor de rosa e mergulhar de cabeça na real maternidade. Vivendo intensamente (há como ser diferente?) tudo que ela tem a nos oferecer!
    Amei, amei e amei!
    Beijos,
    Patricia

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    1. Marusia é ótima nas palavras. Precisa ver seus questionamentos quanto a maternidade perfeitinha. Vá lá dar uma espiadinha! Beijo Pati.

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  3. Oi, Gisa,
    agradeço imensamente pela oportunidade.
    Um grande beijo!
    Marusia

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    1. Beijo pra você que se dedicou a escrever de forma tão sincera.

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  4. Muito lindo, direito e eficiente, como são os textos da Marusia. Obviamente, adorei o texto.

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    1. Josiane, obrigada pela visita no Mãe bacana! O texto é um retrato da Marusia e do seu Blog. Beijos

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